O Papai é Pop, de Marcos Piangers



Não gosto do Marcos Piangers. Sem nem ao menos conhecer o cara, me abracei ao preconceito, devido ao monte de porcaria que ele costuma disparar em um dos principais programas de rádio do Sul do país. Não sei se ele é assim mesmo ou apenas um personagem atrás do microfone. Mesmo assim, antes mesmo de ele aparecer no programa da Fátima Bernardes (por mais de uma vez, aliás), fiquei com vontade de comprar  o livro dele, que traz uma série de crônicas da vida ao lado das duas filhas.

Além disso, eu leio muito, mas leio pouco. Explico. Devoro jornais, revistas e sites, mas admito pecar na quantidade de livros. Tanto que na estante da frente, a da patroa, dá para contar nos dedos o número de obras que são minhas. Eu reclamo dos junk books que fazem sucesso, mas não me dou muito trabalho de ir atrás dos interessantes. Eu até tento, mas normalmente abandono depois de poucos parágrafos. Talvez por isso eu tenha ficado surpreso com a velocidade que eu terminei “O Papai é Pop”.

Não devo ter demorado mais de duas horas para terminar o livro. Não apenas por ser curto. Tem pouco mais de 100 páginas, muitas delas cobertas de artes, que longe de encher linguiça, dão alma à publicação. Terminei em umas duas horas, pois é uma obra que prende na primeira crônica, quando ele revela que deveria ter sido abortado. Tudo para se declarar à mãe e começar a falar dos seus tesouros, a Anita e a Aurora.

As crônicas são pequenas (as maiores não passam de duas páginas) e deliciosas. Piangers fala sobre o sofrimento de deixar as meninas na creche, quando resolve agir como elas para tentar dar uma lição, sobre a culpa por viajar sem as filhas ou então ao ver as brincadeiras atuais e relembrar os “bons tempos de antes” (pobre Otávio). Em todos os momentos, ele brinca com as palavras como se fosse um amigo contando um causo, interrompendo o tempo todo para fazer uma piada, ou para nos mostrar um lado mais meigo.

Em algumas crônicas, ele se derrete completamente pelas filhas, como quando descreve toda a ação de Anita comendo uma bomba de chocolate (ou éclair, como queiram) ou em conversas sobre preconceito e religião. Aurora, de dois anos, também é retratada com brilho, seja na fase do “terrific two” ou quando ela cuida dele quando ele está doente. Aliás, ele não cansa de escrever do mesmo jeito que ele fala, tanto que o vocabulário da caçula ganhou um capítulo.


Piangers também abusa das lições de moral, mas não chega a incomodar. Pelo contrário, elas fazem com que o leitor coloque a mão na consciência. Algumas são para se queixar do excesso de zelo da geração atual, como quando escreve: “Minha mãe me entupia com bolacha e ki-suco na década de 1980 e eu estou aqui, nem tão firme e nem tão forte, mas vivo”.

Em outros casos, ele acerta no emocional, como na crônica em que ele conta que Aurora não sabe o que é passado e futuro. “Ela vive o doce presente, devora a vida como se não houvesse amanhã. Enquanto isso, nós adultos muitas vezes guardamos os doces, pra muitas vezes jamais comê-los”. Forte, não?

Lembro de ter gargalhado ao ler a crônica em que ele fala das histórias que ouve, relatando causos com outras crianças (apenas o parágrafo do caiaio já faz a leitura valer a pena). Mas para mim, o melhor capítulo é o que Piangers conta que começou a mostrar para Anita os filmes que ele gosta. Aos poucos que ela vai conhecendo os clássicos, se apaixona por “Star Wars”. É impossível ler e não pensar em viver tal experiência quando virar pai.

Terminei o livro triste. Como se um amigo tivesse ido embora. Afinal, agora, vou ter que voltar a aturar o Piangers da rádio. Não gosto daquele cara. Mas depois das cento e poucas páginas, descobri que eu gosto muito do pai da Anita e da Aurora.

Juntos somos mais fortes (ou conheçam o Nerdcida!)



Quando escrevi o primeiro post deste blog nunca pensei em quantas pessoas eu iria atingir. Apenas queria poder externar um pouco dos meus gostos através do texto (até eu descobrir que o vídeo também vicia). Amo o dia a dia de redação de jornal, mas é ótimo poder chegar em casa e brincar com as palavras enquanto falo de entretenimento. Uma válvula de escape.

Nunca pensei que pessoas do outro lado do país (e até do mundo) iriam se interessar no que eu tenho a dizer, mas, felizmente, isso aconteceu. Sempre vi as parcerias dos sites e blogs (e a força delas), mas também nunca imaginei em fazer parte de uma, até receber o convite do Gustavo, do ótimo Nerdcida, que eu aceitei na mesma hora.

Nos textos da equipe, a cultura nerd é tratada do jeito que merece. Com leveza e bom humor, feita por quem realmente gosta do que faz. Desde 2012 na web, o Nerdcida deu uma pausa, afinal, os sites (ainda) não pagam nossas contas, mas voltaram com tudo.

Não queremos encher a timeline de notícias só para ganhar cliques, afinal de contas, a internet está cheia disso. Tanto no Nerdcida, quanto na Estante, queremos dar a nossa opinião, levantar a discussão.

Por isso, aos parceiros do Nerdcida, sejam bem vindos! 

O mercado de animes em home vídeo no Brasil – parte 8




O blu-ray é novidade para alguém? Os filmes em alta definição já estão no mercado há quase uma década. Logo logo teremos o 4K em mídia física. Só esqueceram de avisar isso para quem distribui animes no Brasil, já que podemos contar nos dedos os títulos com a caixinha azul no país do 7 a 1.

A grande maioria das produções que chegaram em blu-ray é formada por filmes. Em especial, os do Studio Ghibli. Os melhores exemplos dos clássicos da animação japonesa em alta definição foram lançados pela Versátil, em parceria com a Livraria Cultura: são dois boxes, cada um com três filmes dirigidos pelo mestre Hayao Miyazaki. O primeiro tem "Meu Amigo Totoro", "Princesa Mononoke" e "Nausicaä do Vale do Vento". O segundo conta com "O Castelo no Céu", "O Serviço de Entregas da Kiki" e "Porco Rosso".

Vale destacar o capricho que a Versátil, chamada por muitos de a versão brasileira da Criterion, teve com o box. Além da luva com detalhes em alto relevo, todos os filmes possuem arte interna. O único porém é o estojo opaco, que desvaloriza a arte interna, mas nada que não possa ser corrigido com uma troca.

Dos seis filmes, Mononoke, Kiki e Porco Rosso possuem dublagem em português. Além disso, todos contam com diversos extras, para a alegria geral da nação (em breve, farei um post dedicado exclusivamente aos boxes).


As vendas foram um sucesso e a Versátil precisou fazer um relançamento neste ano. E a expectativa fica pelo volume 3, que não deve demorar, e segundo membros do Fórum BJC, deve ter “Túmulo dos Vagalumes”, “Da Colina do Kokuriko” e “Contos do Terramar”.

Outras distribuidoras também lançaram títulos do Studio Ghibli em alta definição, como a Califórnia Filmes, dona dos direitos de “O Mundo dos Pequeninos” e “Vidas ao Vento”, ambos com imagens deslumbrantes, mas pelados de extras. E “O Conto da Princesa Kaguya” vem aí, com preço nas alturas.

Já a Europa trouxe “O Reino dos Gatos”, que pode ser encontrado facilmente na Cultura, e a Playarte lançou “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar”, que está fora de catálogo tanto em blu-ray quanto em DVD.

Mas nem só de Studio Ghibli vive os animes em alta definição no Brasil. A Focus lançou dois clássicos: “Akira“ e “Ghost in the Shell“. O primeiro causou polêmica no lançamento, devido a (entre outros problemas) falta de áudio em HD.

O segundo traz duas versões: a original, de 1995, e a 2.0, com novas animações. O problema, é que apenas a nova está em 1080p. A versão de cinema (por consequência, a única com dublagem) está em SD. Edição, no mínimo bizarra, mas que está cada vez mais rara.

Para mim, a maior surpresa da lista é “Evangelion 1.11: Você (Não) Está Só“. Como fã do anime, eu nunca imaginei ver o primeiro dos quatro filmes que fazem uma releitura da série em por aqui. Ainda mais em alta definição. Tanto que eu não demorei muito e fui um dos 300 compradores. Sim, a Paris Filmes afirmou que vendeu pouco mais de 300 cópias do blu-ray, e desta maneira, lançou o segundo longa apenas em DVD. E não dá a menor impressão de que irá trazer a parte três...


Sinceramente, para mim, a conta não bate. Cult em todos os lugares em que foi exibido, Evangelion, assim como os filmes do Ghibli, movimenta não apenas os otakus, mas os cinéfilos em geral. Não foram poucos os que compraram o blu-ray de 1.11. Também foi disponibilizado nas locadoras. E além disso, não é encontrado em lugar algum. Ou seja, se vendeu pouco, é porque poucos foram lançados... E todo esse choro por uma edição extremamente simples, mas que era apresentada como “de colecionador”. E cobrando caro!

Por fim, a única das séries lançadas em blu-ray. Logo pela... Playarte! Que por incrível que pareça, não tem feito um trabalho ruim. A empresa disponibilizou logo três volumes, correspondentes ao mesmo número de boxes em DVD. A diferença, além do tamanho, é o preço. A edição em alta definição está mais barata. Sim, enquanto a versão em SD custa R$ 79,90, o disco em HD está à venda por R$ 49,90.

Foto: Liz Sosa

A leitora Liz Sosa, que possui os três volumes lançados, e já está na espera pelo quarto, que está em pré-venda para este mês, criticou apenas o terceiro volume, já que o episódio 39 apresenta quadriculação em algumas cenas. Mas no geral, elogiou bastante o resultado final, garantindo ser um produto de excelente qualidade. “Só o preço que poderia ser melhor e o volume 4 que aumentou muito o preço. Não justifica subir de R$ 49,90 para R$79,90”, afirmou.

E assim, concluímos este especial, o primeiro da Estante. A intenção nunca foi trazer uma análise profunda, já que eu não sou especialista no mercado e nem possuo todos os títulos. Foi mais para fazer um registro do que chegou até nós, e o descaso, que normalmente temos que encarar. Quero agradecer a todo o pessoal que participou e siga ligado que em breve teremos mais novidades!

Confira também as outras partes deste especial:

O mercado de animes em home vídeo no Brasil – parte 7



Quem acompanhou as demais postagens deste especial deve ter reparado que anime no Brasil é quase sinônimo de distribuidoras independentes. É só ver os exemplos: Playarte, Focus, Flashstar, Imagem, além de outras ainda menores. Mas onde estão as gigantes nesta história?

A major que mais apostou em animes foi a Sony, mas de uma forma bastante tímida. Ela trouxe bons títulos de filmes ao país (a maioria já raros) e algumas séries que não tiveram muito destaque, como a última versão de “Astro Boy”, que tinha as crianças como público-alvo. Pelo menos os 50 episódios foram lançados.

As versões em anime de “X-Men” e “Wolverine” também foram concluídas. Mesma sorte não teve “Cyborg 009”. Dos 51 episódios, apenas oito chegaram ao home vídeo brasileiro.

Os longas ganharam mais destaque. Foram lançados “Steamboy”, “Memories” e “Metrópolis”, de Katsuhiro Otomo (o gênio por trás de “Akira”); “Paprika” e “Tokyo Godfathers”, do saudoso Satoshi Kon; além de “The Sky Crawlers”, “Onigamiden - A Lenda Do Dragão Milenar”, “First Squad: A Hora da Verdade”, “Tekkon Kinkreet”, “Final Fantasy VII – Advent Children” (este lançado também em blu-ray) e “Cowboy Bebop: O Filme” (bem que poderia sair a série também!).


Outra série que chegou ao país, e mesmo sem muito destaque foi concluída, é “Ragnarok”, lançada na década passada pela Paramount. O anime baseado no jogo teve os 26 episódios disponibilizados no Brasil.

Já a Warner, mesmo sem muito alarde, conseguiu boas vendas com "Bakugan" e a sequência "Bakugan - Nova Vestróia". Porém, o foco foi o público mais jovem, que assiste animes pelo Cartoon, já que não se deram nem o trabalho de colocar o áudio original em japonês, ficando apenas a (criticada) dublagem em português e em inglês.

Antes disso, a história da distribuidora podia se resumir em dois fenômenos: “Pokémon” e “Yu-Gi-Oh”. A empresa lançou os três primeiros filmes de Ash e sua turma lááá no início dos anos 2000 (e eu fui no cinema em todos). As edições em home vídeo eram até legais, com cartas do TCG da série. O primeiro longa, inclusive, é um dos títulos nacionais mais cobiçados pelos colecionadores, dada a sua raridade (estou aceitando de presente, aliás!).  

A Fox, até pouco tempo, tinha lançado apenas o filme de “Digimon” (que é uma compilação com três histórias lançadas no Japão), mas voltou à cena com mais um longa. “Dragon Ball Z: O Renascimento de F” ganhou espaço nos cinemas e deve chegar às lojas no fim de outubro.

Em resumo, as majors não dão a mínima para o setor. Sem coragem ou visão para apostar no lançamento de uma série de destaque, ficam apenas com filmes, já que a chance de prejuízo neste caso é bem menor. No caso da Sony, poderia dizer que não fizeram mais do que a obrigação, já que possuíam os direitos sobre as produções, caso de “Astro Boy”, mas isso não ocorreu com “Samurai X”, já que foi a responsável pelo lançamento na TV.

Pegando a falta de iniciativa das gigantes e somamos ao despreparo das independentes, temos como resultado o nosso mercado: fraco e previsível. Podem me chamar de pessimista, mas perdemos a chance de ter uma boa oferta de animes em home vídeo há muito tempo. Agora, o que vier é lucro.


Amanhã, a última parte!

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O mercado de animes em home vídeo no Brasil – parte 6



Nem só de exemplos negativos vive a indústria dos animes em home vídeo. São poucos casos, mas algumas empresas parecem saber levar o consumidor a sério, e aos poucos, vão ganhando credibilidade no mercado, caso da Cult Classic.

A empresa segue lançando uma leva de produções antigas. “Fantomas”, “O Judoca”, “Piratas do Espaço” e “Don Dracula” garantiram um lugar na estante de muitos colecionadores e fãs saudosistas graças à Cult, que também buscou tokusatsus como “Robô Gigante” e “Vingadores do Espaço”.

Outras séries ainda aguardam pela conclusão, como “O 8º Homem” e “Super Homem do Espaço”, que tiveram o primeiro volume lançado no ano passado. Os boxes que faltam, porém, ainda não possuem data para chegar às lojas.

Entre os diferenciais que fizeram a empresa dar certo está o tratamento ao material que tem em mãos. Para começar, na apresentação. Os boxes em digistacks têm luva em alto relevo.

Foto: aglomeradonews.com.br

Além disso, existe toda uma preocupação em manter a dublagem original sempre que possível. Por exemplo, dos 52 episódios de “Fantomas”, 42 deles possuem a dublagem feita no estúdio Cine Castro, ainda na década de 1960. Nos casos em que isso não foi possível, o material foi legendado a partir do original.

Outra bola dentro foi o preço, compatível com a realidade do mercado. Para ter ideia, o box de “O 8º Homem” custa R$ 79,90, contendo os primeiros 28 episódios da série. Enquanto isso, a Playarte segue vendendo discos com três ou quatro episódios por quase 40 reais.

Outros clássicos apareceram nas mãos de outras distribuidoras, mas o resultado não foi dos melhores, caso de “Speed Racer”. A Califórnia Filmes acertou ao disponibilizar uma lata para os cases, mas errou no resto. Não bastasse as apresentações, no mínimo feias, das embalagens, a edição conta apenas com a redublagem, possui problemas com o áudio, falta de legendas... pelo menos o anime foi concluído, ao contrário de “A Princesa e o Cavaleiro”, que assim como outras séries da Focus, não terminaram!

O bom gosto passou longe desta capa de "Speed Racer"

Vale ressaltar, que o mercado é diferente quando dividimos os animes entre os hits do momento e clássicos da década de 1960/70. Enquanto os primeiros têm os lançamentos descontinuados aqui pela falta de vendas – já que, como foi comentado no último post, o pessoal prefere baixar do que abrir a carteira – o público que busca uma série antiga é diferenciado. É o mesmo caso dos tokusatsus. Um público mais velho, com um poder aquisitivo diferente, que viveu aquela época e quer ter na estante o DVD original da série.

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O mercado de animes em home vídeo no Brasil – parte 5



Nos outros posts desta série, a maior reclamação foi com as empresas que lançam os animes, mas não chegam nem na metade e... cancelam (se o básico as empresas não fazem, esperar um pouco mais de capricho na edição chega a ser uma utopia). Mas tem distribuidoras que fazem muito pior. Colocam os títulos no mercado e não deixam o fã aproveitar nem o primeiro DVD que já se despedem.

O pior caso é o da Imagem Filmes, que chegou a pegar boas produções como “Yu-Gi-Oh” e “Inuyasha”. O anime das cartas pode ser encontrado com facilidade nas locadoras. Mas não espere muitos episódios. O lançamento foi até o sexto DVD, totalizando 18 capítulos. Já a série do youkai teve apenas os dois primeiros episódios lançados. Parece que a empresa não fazia ideia do potencial que tinha nas mãos.

Mas a Imagem não parou por aí. "Kaleido Star", "Músculo Total", "Sakura Wars" e "Super Doll Licca-Chan" pararam após dois episódios. Outros tiveram mais sorte, conseguindo ir para as locadoras/lojas com quatro capítulos, casos de "Pokémon" (já na sétima temporada), "Kirby e Seus Poderes", "Cãezinhos de Sorte" (?!)" e "Ki-Fighter". "Cubix" e "Shin-Chan" podem ser considerados sucessos. O primeiro teve cinco episódios disponibilizados. O segundo, seis. Além disso, a empresa distribuiu vários filmes aleatórios de “Dragon Ball Z”, mas sem o menor cuidado.

Outros animes consagrados sofreram nas mãos de distribuidoras pequenas. A fase "R" de “Sailor Moon” chegou a ser lançada pela Flashstar... Parou no segundo disco. Já a CD & DVD Factory fez alarde e chamou atenção para a distribuição da série “S”. Durou apenas três episódios.

Com "Sailor Moon S", a CD & DVD Factory prometeu. Mas na hora de cumprir...

Já “Samurai X” apareceu nas mãos de uma tal Mel Editora. O lançamento foi extremamente bizarro. Saíram três DVDs com 10 episódios no total. Do 29 até o 38. Pode ser encontrado nas gôndolas de alguns mercados por aí. Mesma situação de “Evangelion” e até “Dragon Ball Z”. Mas nestes casos, não aparece nem a marca da responsável. Tudo leva a crer que a “empresa” não possui os direitos de distribuição...

Porém, nem sempre a culpa é apenas da empresa. O fã cobra o melhor, mas na hora de comprar, não faz a parte dele, como veremos a seguir.

Derrubado pela pirataria



Desde o meio da década de 1990 até o início dos anos 2000, não era raro ver animes disponíveis para o home vídeo. Principalmente nas bancas de revistas. De tempos em tempos apareciam títulos. Fossem OVAs como os de “Fatal Fury”, lá por 1996, até os filmes de “Dragon Ball”, já no novo milênio.

E foram nas bancas que surgiram alguns dos primeiros títulos em DVD, lançados pelo Studio Gabia, em 2002. Com forte presença na dublagem e na autoração no formato, a empresa acreditou que o nicho era promissor e apostou na distribuição de animes. Comprou um pacote de produções como “Super Campeões” (cujo primeiro volume eu tive), “Shaman King”, “Vampire Princess Miyu” e o filme de “Sakura Card Captors”. Mesmo com preço competitivo (na época, os R$ 19,90 não eram um mau negócio), não deu certo.

Duas frentes (que caminham juntas) acabaram com as pretensões da Gabia: a falta de apoio dos fãs e a pirataria. Não demorou muito para que aqueles DVDs estivessem disponíveis em cópias piratas. A lenda diz que o dono da empresa se indignou ao ver os títulos em uma feira de animes (ao mesmo tempo que suas revistas estavam encalhadas nas bancas) e desistiu da publicação, abandonando, inclusive, os direitos que tinha sobre outras produções.

Na ocasião, os otakus aproveitaram para colocar defeito em tudo. Ok, a empresa pode não ter feito um trabalho 100%, mas claramente se esforçou para melhorar (tanto que nos volumes seguintes, que ninguém comprou, a qualidade é maior). Além disso, tiveram coragem de apostar em um mercado que não existia. O fã queria. Mas não fez a parte dele. Preferiu baixar. E continua fazendo isso. Sem vendas, não existe mercado que aguente.


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O mercado de animes em home vídeo no Brasil – parte 4


Foto: Luiz Guilherme

Na segunda metade da década passada, nenhuma distribuidora movimentou tanto o mercado de animes como a Focus Filmes. A empresa aproveitou o bom momento que a RedeTV vivia na época com a exibição de títulos como “Fullmetal Alchemist”, "Super Campeões", "Hunter x Hunter" (a primeira versão, de 1999) e "Viewtiful Joe" para entrar no mercado.

Os box das quatro séries surpreendiam pela qualidade. Além das luvas, os estojos possuíam arte interna, além de outros mimos como pôster ou cards. Mas apesar do sucesso na TV aberta, nenhum daqueles títulos poderia ser considerado um blockbuster. Pelo menos não em nível de levar os expectadores para as lojas. A Focus, porém, pensou de forma diferente. E quebrou a cara. Quase ninguém comprou. E qual foi a decisão da empresa neste momento? Acertou quem apostou no cancelamento.

“Fullmetal Alchemist” foi o único que teve o lançamento concluído, mas não sem uma longa novela, que será relembrada a seguir. Os outros não tiveram a mesma sorte. “Viewtiful Joe” e “Hunter x Hunter” foram cancelados após o lançamento de três boxes (nove discos e 36 episódios no total). A situação de “Super Campeões” foi ainda pior. O anime de futebol não chegou nem na metade, sendo interrompido no episódio 24.

Mais tarde, já em 2010, a Focus apostou em um título com um apelo bem maior: “Digimon”. Pena que fez isso com quase 10 anos de atraso, já que sem o hype da época, os DVDs encalharam. Parou no episódio 26.

Não foi apenas a falta de timing que impediu o sucesso de “Digimon”. É meio difícil esperar que o consumidor dê um voto de confiança para uma empresa que já descontinuou a maioria dos lançamentos. E com mais um cancelamento, fica fácil entender a resistência dos fãs com a empresa.

Foto: Roger.R.A.Raimundo (Roger's Stuffs)

Depois de tantos cancelamentos, a empresa continuou apostando em animes. Tanto que lançou o clássico “A Princesa e o Cavaleiro”, de Osamu Tezuka. Mas não é nem necessário dizer que não teve fim.

Nos últimos tempos, a empresa dedicou as maiores atenções aos boxes de tokusatsu e relançou várias produções completas, como “Changeman”, “Flashman”, “Jaspion”, “Jiraya” e “Jiban”, já que pelo menos os fãs nostálgicos abrem a carteira. Até Focus até chegou a flertar com o anime de “Samurai X”, após as boas vendas do filme live action, mas até agora não passou disso. Como fã da produção, nem crio expectativas, afinal, quais são as chances de completar o lançamento de uma série com quase 100 episódios?

A novela Fullmetal Alchemist

Foto: Luiz Guilherme

Lançado em 2006 pela Focus, “Fullmetal Alchemist” teve um ótimo tratamento pela distribuidora. Pelo menos no primeiro box: luva em papelão duro, estojos com arte interna, além de brindes como pôster e cards 3D. Além da boa qualidade de vídeo, os discos possuíam três faixas de áudio e vários extras.

O investimento, porém, não teve o retorno esperado. Talvez porque, mesmo com esse tratamento, não seja interessante pagar quase R$ 100 por 12 episódios de vinte e poucos minutos. Na ocasião, a empresa fez o que devia: continuou com o lançamento com os volumes 2 e 3. Mas a qualidade caiu bastante. Seja na luva, na impressão ou até na autoração, quando foram retiradas as legendas em inglês e a faixa de áudio de cinco canais.

Eis que “Fullmetal Alchemist” teve o mesmo destino das outras séries da Focus. Cancelada, com a justificativa é que as vendas não haviam alcançado níveis satisfatórios. Os fãs, que investiram pensando que teriam uma coleção completa, ficaram chupando o dedo. Pelo menos por três anos, quando a empresa surpreendeu e anunciou o último box (em uma tentativa de salvar a credibilidade perdida).

O quarto box, porém, foi mais um balde de água fria. Os episódios eram os mesmos que haviam sido exibidos pela RedeTV, ou seja, cheio de cortes (por mais que a capa fizesse questão de dizer o contrário).

No ano passado a Focus voltou a surpreender, anunciando um box com a série completa, em digistack, no mesmo padrão dos tokusatsus. Mas... com uma capa genérica. Eis que os fãs gritaram e foram ouvidos. O site Jbox fez a frente e participou do redesign da capa. E não a única mudança, já que a caixa recebeu uma luva. Tudo perfeito? Ainda não!


Na hora do resultado, o último disco apresenta erros bizarros de autoração (provavelmente por ter um episódio a mais que os outros), além de novos cortes. Foram necessários quase seis meses até o recall e o relançamento e... Ufa. Quase 10 anos depois do primeiro box, a coleção “Fullmetal Alchemist” está completa. Precisava ser tão difícil?

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