Relatos selvagens do cinema portenho
A rivalidade entre Brasil e Argentina faz com que muitos olhem torto para tudo que vem do país vizinho. Afinal, não é fácil admitir que Messi é melhor que Neymar ou que eles têm mais Libertadores que nós. Que os panelaços daqui são pequenos perto daqueles que duram dias em frente à Casa Rosada. Ou então que eles têm um cinema espetacular.
No meio de tantos blockbusters, eles podem passar meio despercebidos, mas estão por aí, seja na galeria do Netflix ou das locadoras. Com o Oscar de “O Segredo dos Seus Olhos” (melhor filme estrangeiro em 2010), o cinema argentino, que já havia crescido após o sucesso de “Nove Rainhas” (2000), ficou ainda maior. Jamais se produziu tantos longas quanto hoje. São mais de 130 filmes por ano. E dão um banho de qualidade em grande parte da produções norte-americanas.
Cresci no cinema pipoca. Até por isso, relutei (olha a rivalidade aí) a dar uma chance às produções hermanas. O primeiro foi justamente “O Segredo dos Seus Olhos”. Não foi nem pelo Oscar, e sim pela promessa de um final impactante (que foi cumprida com louvor).
"O Segredo dos Seus Olhos", vencedor do Oscar em 2010
Quando visitei Buenos Aires, no ano passado, já era um admirador do cinema portenho. Minha esposa, por sua vez, é apaixonada pelo país, mas não havia experimentado a sétima arte argentina. Até a semana passada. Assistimos, na sequência, os cultuados “Medianeras” e “Um Conto Chinês” (ambos disponíveis no Netflix) e por último, “Relatos Selvagens”, o grande destaque do ano passado.
As duas horas de exibição de “Relatos Selvagens” passaram quase que em um piscar de olhos. Mas foi tempo suficiente para que eu pudesse ter todos os tipos de sensações que o cinema pode oferecer. Coisa rara. Raríssima.
Para quem não sabe, o filme, que concorreu ao Oscar desse ano, é dividido em seis episódios com o mesmo tema: a perda do controle. E ele ganha o espectador desde a primeira, na divertidíssima (e macabra) história do avião. Como bem lembraram os amigos do Cinemito, tem o estilo das crônicas de Luis Fernando Veríssimo.
O excelente episódio de abertura de "Relatos Selvagens"
Na sequência, temos a sedução da vingança; a discussão em uma estrada; a revolta de um homem contra o sistema; a corrupção; e um casamento. Em cada uma das histórias, um turbilhão de emoções, que emanam da identificação. É fácil se colocar em qualquer uma daquelas situações.
Talvez por isso, o filme tenha feito o sucesso que fez. Um fenômeno. Foram 3,4 milhões de ingressos vendidos apenas na Argentina, o que corresponde a 8,5% da população do país, que tem cerca de 450 salas de cinema. Para comparar, “Tropa de Elite 2”, nossa maior bilheteria, teve pouco mais de 11 milhões de espectadores (5,5% da população). Vale lembrar que enquanto o Brasil possui 200 milhões de habitantes, os vizinhos têm 40 milhões.
A seleção de atores também é magnífica. O que deveria ser o filme do Ricardo Darín, acaba sendo do Osmar Núñez, do Diego Gentile, do Leonardo Sbaraglia, e principalmente, de Érica Rivas. A atriz está brilhante como a noiva do último (e melhor) dos episódios.
Érica Rivas e Diego Gentile, os donos da melhor história
Como nos melhores momentos de Quentin Tarantino, o diretor Damián Szifrón, de 39 anos, utiliza de todas as armas para contar sua história. Violência gráfica, humor negro e até um pouco de escatologia. Tudo é exagerado, mas extremamente verossímil. Você torce pelos personagens e pelo absurdo.
Na grande maioria das produções argentinas, o tema cotidiano está presente. São situações que poderiam se passar em Buenos Aires, em São Paulo ou em Criciúma. Muda apenas a assinatura dos diretores, donos de uma estética linda, e que não têm medo de ousar com a câmera na mão. É fácil ver takes diferentes do padrão estabelecido em Hollywood.
A tomada no estádio Tomás Adolfo Ducó, na partida entre Huracán e Racing, em “O Segredo dos Seus Olhos” é uma das cenas mais incríveis que eu já vi. Na época fiquei hipnotizado pela direção de Juan José Campanella, um dos principais nomes do cinema de lá.
Além da direção, os atores esbanjam qualidade. O mais famoso deles é o espetacular Ricardo Darín, de 58 anos. Não é à toa que ele é praticamente um embaixador do cinema argentino. Dos cinco filmes citados acima, ele está em quatro. Ótimo ator e dono de uma personalidade fortíssima. Tanto que não deu chances a Hollywood. “Sou fiel a mim. Prefiro trabalhar no meu idioma. Recebi propostas de Hollywood e as recusei. Por que interpretaria um traficante mexicano em uma produção americana? O que há de interessante nisso? Não entendo essa mania de achar que o que está longe é melhor”, afirmou, em entrevista à revista Status.
Darín, o embaixador do cinema argentino
Quem tiver interesse em conferir algumas produções argentinas, pode conferir a seleção do blog “Cinema Argentino em Português”, que listou vários filmes disponíveis no Netflix. A minha lista é grande. Seja com Darín, Campanella ou Szifrón, quero aproveitar o que os nossos vizinhos têm de melhor.
Na estante
Começou a caçada por filmes argentinos para a estante, que atualmente tem apenas um. A ótima animação "Um Time Show de Bola", dirigido por Campanella, pode ser encontrada facilmente, em 3D e com luva metalizada.
O único hermano na coleção
Dos filmes citados acima, "Medianeras" e "Nove Rainhas" podem ser encontrados em DVD. "Um Conto Chinês" e "O Segredo dos Seus Olhos" foram lançados também em Blu-ray, mas não são fáceis de serem encontrados. "Relatos Selvagens" já está em pré-venda, com entrega para o dia 28.







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